Entrevista: Ivo Pitanguy

Lenda viva. O termo que o jornal francês Le Figaro usou para descrever o Dr. Ivo Pitanguy não é exagero. Uma das maiores autoridades mundias em cirurgia plástica, Dr. Pitanguy já formou mais de 500 profissionais em 40 países. Aos 85 anos, continua na ativa em sua clínica particular e em projetos assistenciais. Na seção de estreia do go2Health entrevista, Dr. Pitanguy conversou com nossa equipe de reportagem sobre carreira, valores pessoais, futuro da medicina e o sentido ético da cirurgia plástica. (Entrevista concedida na ExpoGestão 2012, em Joinville)

boaconsulta – Como o senhor se tornou cirurgião plástico?
Dr. Ivo Pitanguy – Foi uma consequência natural do que eu já fazia na época. Dentre as especialidades todas da medicina, eu senti que o que eu gostava mesmo era de cirurgia. Trabalhei muito tempo em hospitais de pronto-socorro, com atendimento de urgência. A prioridade era salvar a vida dos pacientes. Mas depois que os pacientes estavam fora de perigo, eles ainda tinham muitos problemas. Eu atendia muitas vítimas de corte com navalha e outras armas brancas. E essas pessoas ficavam com o estigma da cicatriz no corpo. Então, eu percebi que procurar amenizar o estigma que a cicatriz causa nas pessoas era algo quase tão importante quanto o atendimento de pronto-socorro. E resolvi tratar da parte externa do corpo dos pacientes.

boaconsulta – Por que o senhor foi estudar no exterior?
Dr. Ivo Pitanguy – Porque notei que me faltava alguma coisa. Faltava me formar e aprender bem. O que é muito necessário para fazer a cirurgia plástica reparadora no seu sentido mais amplo. Inicialmente, eu fiz muitas cirurgias de mão e com queimados. Depois, ganhei uma bolsa e fui para os EUA. Passou mais algum tempo e fui para a Europa. Lá, eu passei algum tempo procurando o conhecimento que eu não tinha como obter aqui. A cirurgia plástica, mesmo lá fora, ainda era uma coisa muito espalhada. Não havia cursos muito bem formados.

boaconsulta – Onde o senhor desenvolveu os procedimentos inovadores que o deixaram famoso?
Dr. Ivo Pitanguy – Quando voltei para o Brasil, eu tive vontade de transmitir os conhecimentos adquiridos lá fora. Também senti que a a elitização da especialidade era uma coisa falsa, pois o ser humano é o mesmo em todo lugar. Os doentes mais carentes pelos quais eu sentia que podia fazer alguma coisa, eu levava para a Santa Casa, que é um hospital de caridade. Ainda hoje, eu vou uma a duas vezes por semana nesse serviço que formei na Santa Casa. Lá, tive possibilidade de aprender muito com as pessoas. Se você não estiver em paz consigo mesmo, com problemas psicológicos por causa da aparência, você não se encontra. Aí você tem que tratar a sua parte anímica (palavra que vem de anima, radical latino de alma). Se for uma deformidade, seja ela congênita ou adquirida, nós podemos corrigir. E isso dá uma paz interior enorme. É essa paz interior que a gente procura com a cirurgia plástica. Mas isso eu aprendi lidando com as pessoas desse serviço da Santa Casa. O hospital, além de ajudar a população carente, permite também formar outros cirurgiões. E hoje o nosso serviço já tem 50 anos.

boaconsulta – Como o senhor se tornou uma das maiores autoridades internacionais em cirurgia plástica?
Dr. Ivo Pitanguy – Eu trabalhei muito com mamoplastia, reduções mamárias e a parte de emagrecimento. Toda essa experiência clínica foi transformada em trabalhos científicos espalhados pelo mundo. Hoje. já são mais de 900 publicações e 50 livros. Isso faz com que uma pessoa seja conhecida de uma forma científica. Ter formado muita gente também é muito importante para complementar a vida pessoal.

boaconsulta – Quantas operações o senhor já fez na vida?
Dr. Ivo Pitanguy – Ah, faz muito tempo que perdi as contas. Mas foi pelo menos o equivalente a uma cidade de médio porte.

boaconsulta – O que as inovações tecnológicas na medicina vão causar na cirurgia plástica?
Dr. Ivo Pitanguy – O futuro da cirurgia plástica sempre se beneficiou do futuro da medicina. E, nos últimos tempos, houve uma revolução tecnológica importante na medicina. Essa melhora progressiva vai acenando para novas descobertas. Ela está chegando com o estudo das células-tronco e do genoma. Futuramente, nós talvez tenhamos a possibilidade de usar órgãos sintéticos à nossa disposição. Os novos avanços na imunologia também são muito importantes para a cirurgia plástica.

boaconsulta – Qual foi a cirurgia mais difícil que o senhor fez?
Dr. Ivo Pitanguy – A partir do momento que você vai ficando mais maduro, você começa a achar que toda cirurgia é difícil. E aí você opera melhor. Mas eu me lembro de um caso específico. Quando eu voltei da Inglaterra para o Rio, eu estava com o olho muito treinado. Então aceitei tratar o caso de uma menina que teve 100% do corpo queimado. Todas as estatísticas indicam que pessoas no estado dela tendem a falecer. Mas ela sobreviveu. Só que ficou com um estigma muito grande por causa das queimaduras. E eu quis ajudá-la. Ela ficou muito ligada a mim. Há pouco tempo, ela veio me visitar. Agora, ela é uma senhora e já tem uma filha. Ela veio me perguntar informações médicas para a filha dela. Foi o maior presente que ela pôde me dar. Essa satisfação a gente tem em qualquer ramo da medicina. Mas, dentro da cirurgia plástica, as satisfações pessoais são muito grandes.

boaconsulta – Qual a sua opinião a respeito de shows de tv que exploram a cirurgia plástica, como os programas do Dr Ray, por exemplo?
Dr. Ivo Pitanguy – É uma pergunta muito interessante. Eu acho tudo isso muito errado. Toda entrevista que eu der a você ou a outra pessoa da mídia, eu tenho que pensar no que ela servirá para a especialidade, para um outro médico ou para a medicina. Todo esse excesso de exposição quebram a liturgia e a formalidade de um centro cirúrgico. E não é verdadeiro. Tanto que eu acho que essas e todas as outras banalizações da especialidade são errôneas. É muito importante que a pessoa comum nos considere um ramo da cirurgia geral semelhante aos outros. Pois o benefício real que uma cirurgia estética bem praticada traz é muito grande. Eu apoio a ideia de afastar da especialidade as pessoas que não partilham desse conceito. Acho que é um problema ético na profissão, mas também é um problema característico da época em que vivemos hoje.

Compartilhe a entrevista nos links abaixo.

Compartilhe: