Como é desenvolver um novo negócio em uma área tradicional

Filipe Serrano, editor do Link, caderno de tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo, esteve no nosso escritório na semana retrasada. O papo foi tema da coluna dele na edição desta segunda-feira. Leia:

A dificuldade das startups para superar barreiras tradicionais

A área da saúde é um dos muitos setores explorados pelas novas empresas de internet brasileiras. Não é à toa. Essa é uma área dispersa, de profissionais liberais que atendem em clínicas, muitas vezes pequenas, ou hospitais, e que valoriza muito a experiência cara a cara, na relação entre médico e paciente. Mas, usando a tecnologia de buscas e bancos de dados, essa dispersão pode ser organizada para facilitar a escolha de um serviço de saúde, seja um médico, um laboratório de exames ou um plano de saúde.

Todos nós que, em algum momento, temos de procurar um médico, dependemos sempre da indicação de alguma pessoa próxima para escolher um profissional. É algo que nos dá mais confiança, mas as opções acabam ficando restritas à nossa rede de contatos. E é justamente para que as pessoas tenham mais opções de escolha que muitas empresas criaram serviços focados em saúde.

Há vários exemplos de sites que surgiram nos últimos dois anos oferecendo agendamento de consultas e busca por médicos – Saútil, HelpSaúde (do fundador do Bondfaro, Gustavo Guida), ZapSaúde, ConsultaClick, Ache Seu Doutor, AvalDoc, Dr. Busca e YepDoc são alguns que operam no Brasil. A maioria se inspira no modelo – e no sucesso – do site norte-americano ZocDoc, que também ajuda a marcar consultas. É uma fórmula simples: o site procura médicos dispostos a aparecer no serviço, fornece uma ferramenta de agendamento para a clínica, e as pessoas podem buscar o médico de acordo com a especialidade, o plano de saúde e a localização.

Na semana passada, fui conhecer o escritório de uma dessas startups de agendamento, a BoaConsulta, criada por Octavio Domit, Adriando Fontana, Victório Braccialli Neto e a médica ginecologista Daniela Bouissou. Os quatro dividem o espaço instalado em um prédio comercial na Avenida Nove de Julho, em São Paulo. O escritório é pequeno, como o de muitas startups, dividido em três ambientes por “paredes” de vidro onde eles escrevem com pincel atômico ideias e projetos para o site.

O serviço recebeu três rodadas de investimentos desde que foi criado em 2011, que permitiram a expansão. Hoje ele processa cerca de mil consultas por mês. Os médicos e clínicas cadastrados são apenas de São Paulo, mas a ideia é que ele venha a atender um dia outras cidades brasileiras. Assim como os outros sites, eles também querem se tornar tão fortes no Brasil quanto o ZocDoc virou nos Estados Unidos.

Mas, apesar da expansão, na conversa com os quatro fundadores é possível perceber que algumas dificuldades passam por um problema que está muito ligado à regulamentação da profissão de médico. Com frequência, é preciso pensar se as ferramentas não violam as regras e códigos de éticas da profissão. E, nem sempre, algo que seria útil para a pessoa que busca um médico, pode ser adotada. Por exemplo, não é possível comparar preços das consultas pelo site ou listar os resultados de acordo com o valor – uma dúvida que é facilmente tirada com alguns telefonemas para as clínicas –, ou muito menos favorecer um ou outro médico nos resultados de busca.

Outra facilidade seria publicar avaliações de pacientes ou criar uma forma de saber o que seus amigos e conhecidos acharam do atendimento recebido de um ou outro profissional – mais ou menos como é feito em sites em que as pessoas escrevem avaliações de serviços, como hotéis ou restaurantes. Mas isso também esbarra em alguns pontos sensíveis, como a privacidade dos pacientes atendidos, e por enquanto é uma questão que não está resolvida.

Acredito que este não vai ser um problema só das startups de saúde, mas, à medida que mais empresas de internet se especializam em atender serviços de nicho, elas vão esbarrar em regulamentações e códigos profissionais que foram criados sem levar em conta o formato digital. Hoje a internet já é usada para procurar todo tipo de serviço – e os próprios consumidores valorizam a facilidade. E, por mais que existam empreendedores dispostos a criar essas ferramentas, eles também vão ter de superar a resistência de setores tradicionais para atrair clientes e manter o negócio.

(Via Link Estadão)

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